Antidepressivo parece promissor contra covid, mas estudo tem limitações

Fonte inicial: Fapesp na Mídia. Por Giulia Granchi, do VivaBem, em São Paulo.

Foto: Divulgação

De antibióticos a antiparasitários, diversas classes de medicamentos já foram testadas no combate à covid-19. Em junho do ano passado, poucos meses depois da primeira infecção do Sars-CoV-2, 153 drogas estavam em testesao redor do mundo.

Mesmo com a chegada das vacinas, continua a busca para encontrar um remédio capaz de tornar a infecção pelo coronavírus mais branda. Uma das substâncias estudadas atualmente é a fluvoxamina, que funciona como inibidor seletivo de recaptação de serotonina e é indicada no tratamento da depressão  e de transtornos de ansiedade como o transtorno de pânico e de estresse pós-traumático.

Cientistas brasileiros já avaliaram sua ação em testes feitos em laboratório. Em entrevista a VivaBem, Luiz Guilherme de Siqueira Branco professor da FORP (Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP), disse que a possibilidade é descrita em um artigo de revisão publicado no European Journal of Pharmacology.

A fluvoxamina atua como inibidor seletivo de recaptação de serotonina (hormônio neurotransmissor conhecido como ‘hormônio da felicidade’) no cérebro e justamente por isso é efetiva para tratar ansiedade e depressão.

Há 5 anos, conta o professor, outra pesquisa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) avaliou se o processo de inflamação sistêmica poderia sofrer alguma alteração com menos ou mais quantidades do hormônio. “Naquela época, não tínhamos nem ideia do que acontece com a produção da serotonina quando se tem doença inflamatória”, diz.

Fazendo uma inflamação induzida com parte de uma bactéria, a serotonina foi reduzida em ratos. Depois, testaram o caminho contrário: será que a gente revertendo essa redução com serotonina exógena, ou seja, adicionada, seria possível aliviar o quadro inflamatório? “Em inflamações sistêmicas bem moderadas, como cistite e resfriado leve, vimos que sim”, explica Branco.

Novo estudo testa remédio para covid-19

Agora, um novo estudo, publicado como pré-print (ainda sem a chamada revisão de outros cientistas não envolvidos na pesquisa e publicação em revista científica), com 739 pacientes no grupo que testou o medicamento (e mais 733 no grupo placebo), aponta que aqueles que receberam fluvoxamina poucos dias após o teste positivo para covid-19 tiveram 31% menos probabilidade de acabar hospitalizados e, da mesma forma, menos probabilidade de precisar de ventilação.

O método científico é bom, aponta a médica intensivista cardiologista Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, que analisou a o pré-print em conjunto com Alexandre Biasi, diretor de pesquisa do HCOr. O estudo é randomizado (pacientes foram colocados aleatoriamente nos diferentes grupos) e duplo-cego (nem os pesquisadores, nem os pacientes sabem qual medicamento foi dado para cada um).

Mas a pergunta continua a mesma que o professor Branco contou ter sido feita pelos referees —os “juízes”— que receberam o estudo do seu grupo: como um medicamento que age no cérebro pode aliviar inflamações no corpo todo?

Por ora, o pré-print não dá respostas detalhadas sobre isso. “Uma das limitações é justamente a falta de um racional científico, ou seja, algo que justifique por que uma droga que é um é inibidor da recaptação da serotonina está sendo usada —onde exatamente ela agiria. Se não a gente poderia começar a testar qualquer coisa contra a covid-19, de dipirona a alho”, explica Rachel Riera, professora adjunta da disciplina de medicina baseada em evidências da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo).

** Desfecho combinado
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Mas o ponto mais importante entre as limitações, explica Riera, é o efeito da intervenção —ou seja, o efeito real do medicamento. Como desfecho primário do estudo, os autores usaram um desfecho combinado: ou o paciente poderia ficar mais de seis horas na observação no hospital ou seria internado.

“O que acontecesse com essa pessoa já seria considerado nos resultados como um evento e isso é preocupante, por serem casos que têm gravidades diferentes [observação e internação]. A avaliação é que são coisas diferentes que foram somadas como um desfecho único, provavelmente para aumentar o poder do estudo.”

“Avaliados separadamente, os desfechos combinados —ou seja, só a internação ou só a observação— aparentemente não resultaram em um benefício com a droga”, complementa.

** Estudo foi interrompido antes da hora
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A terceira limitação apontada por todos os médicos consultados é o fato de que o estudo foi interrompido antes da hora por superioridade. Em análises científicas, isso ocorre quando há certeza de que o desfecho da intervenção escolhido para a investigação funciona do ponto de vista prático.

O problema, no caso do pré-print, explica a professora da Unifesp, é que o desfecho não era tão relevante.

“Se o desfecho primário escolhido fosse observar mortalidade e houvesse detecção de uma taxa muito superior de mortalidade no grupo que não tomou o remédio, isso me dá a prerrogativa para interromper o estudo para poder oferecer o tratamento também pro grupo que recebeu o placebo [e assim salvar mais vidas].”

Na nova análise, aponta a especialista, o fato de ter reduzido a internação ou o tempo de observação no hospital, não significa que os pacientes morrerão menos, terão menos intubações ou sequelas —ainda não há uma resposta definitiva.

Mas as limitações apontadas não significam que o estudo não é válido. A conclusão da análise de Veiga e Biasi, entrevistados por VivaBem, é que a pesquisa serve para orientar outros estudos com a droga.

“Neste momento ele não é realmente forte a ponto de eu começar a prescrever o medicamento, mas é um estudo que inicia uma conversa para vermos o que vem daqui para frente e esperar a revisão por pares”, diz Veiga.

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